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| Augusto dos Anjos |
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Ler Augusto dos Anjos é como tomar um soco. Fica uma impressão atordoante que não pode ser apagada dos olhos de quem lê. O estilo ousado e vertiginoso causou espanto e reações controversas entre leitores e escritores brasileiros do início do século passado. Em 1912 ele lançou seu único livro, intitulado Eu. De início acusavam-no de ser presunçoso, por causa do título. Alguns julgavam seus sonetos incoerentes e pouco originais. Crítica injusta, já que justamente a originalidade do autor foi o que o fez tão copiado e seu livro um dos mais editados no Brasil do século XX. Nascido na Paraíba, filho de senhores da cana-de-açúcar, viu a ruína financeira da família, o que provavelmente contribuiu para que desenvolvesse uma fixação mórbida pela condição humana naquilo que ela tem de finita, de perecível. Morreu aos 30 anos, vítima de pneumonia, em Leopoldina/MG.

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