Seja bem-vindo(a)

Esse blog foi criado com a intenção de ampliar o diálogo entre o pessoal do Poesia na Praça e aqueles que gostaram da ideia.

Muitas vezes, nos rápidos encontros que temos com nossos interlocutores, ficamos com a sensação de que seria muito bom continuar a conversa. Então criamos esse espaço, na esperança de que essa também seja a sensação de quem ficou com o poema nas mãos e a lembrança desse encontro.

Sem contar que aqui poderemos apresentar um material mais rico e interessante. Se você chegou até aqui, esperamos que volte muitas outras vezes.

domingo, 17 de julho de 2011

Filme sugerido - Palavra (En)cantada

 
Excelente filme que explora a relação entre a poesia e outras formas de arte, em particular, a música. Especilamente recomendado para quem ainda não descobriu que literatura e poesia têm lugar "na mesa do café". Imperdível!

NOTA: Estamos organizando uma exibição gratuita do filme "Palavra Encantada" no espaço da escola Kumon, no bairro Eldorado. Ainda não temos data definida. Se alguém se interessar, por favor, envie um comentário.

sábado, 9 de julho de 2011

A 2ª vez

O violão já está afinado. Hoje, em nosso segundo encontro, vamos para a praça falar de poesia e MPB.  Nada melhor!

Selecionamos quatro canções de quatro artistas diferentes para levar nos panfletos. Evidentemente essa "amostra" é muito pequena, dada a dimensão e a qualidade do cancioneiro popular brasileiro. Entretanto julgamos que, do ponto de vista poético, as quatro selecionadas não ficam a dever às demais.

Se você quiser baixar os arquivos dos panfletos (no formato pdf), basta clicar na imagem abaixo.

Poesia para voz e violão

Música popular e poesia são expressões de um universo à parte, o interior humano. E essa não é a única semelhança entre essas duas formas de arte. A pulsação, o lirismo, a letra... Bastaria dizer que poetas frequentemente transitam entre uma e outra. Vinicius de Moraes, Waly Salomão, Torquato Neto são exemplos de autores que também contribuíram para o espetacular cancioneiro brasileiro.

Mas compor canções com matizes de poemas não é exclusividade de quem “nasceu” no reino das letras. Há artistas que imprimem em suas composições a sedução inevitável da poesia. Buscam, assim como os poetas, fugir do lugar-comum. Recusam clichês, metáforas como “flor do meu jardim”, “estrela do meu céu”, que de tão gastas já não significam nada. Ao contrário, buscam palavras exatas, metáforas originais, inusitadas às vezes, que conquistam na medida em que surpreendem e decifram o que normalmente sentimos sem saber explicar.

Esquadros

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores!
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus...
Eu ando pelo mundo divertindo gente chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome...
Pela janela do quarto
Adriana Calcanhoto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados
De um lado eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado...

Adriana Calcanhoto faz parte de uma recente geração de artistas que oxigenou a MPB, misturando um leque amplo de influências em um som moderno e arrojado. A canção Esquadros revela também uma compositora de olhar agudo, que observa a metrópole com o espanto e o lirismo próprios de pensadores e poetas. Com ela, Adriana nos coloca ora de um lado da janela, ora do outro, para nos mostrar um insólito cotidiano ao qual já nos acostumamos.

Oceano

Assim
Que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão,
Dava prá ver o tempo ruir
Cadê você?
Que solidão!
Esquecera de mim?
Enfim,
De tudo o que
Há na terra
Não há nada em lugar
Nenhum!
Que vá crescer
Sem você chegar
Longe de ti
Djavan
Tudo parou
Ninguém sabe
O que eu sofri...
Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor...
Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano
E esqueço que amar
É quase uma dor...
Só sei viver
Se for por você!

Djavan é certamente um dos mais conhecidos “poetas” da música brasileira. E não é por menos. Oceano é apenas uma das canções que demonstram sua capacidade criativa. Riquíssima em metáforas de muito bom gosto, que suscitam imagens surpreendentes. Senão o que dizer de “amar é um deserto e seus temores”? Ou “dava pra ver o tempo ruir”? Ou ainda “vida que vai na sela dessas dores”? Fantástico!

Faz Parte do Meu Show

Cazuza




















Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor
Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Confundo as tuas coxas com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida pra te mostrar quem sou
Vago na lua deserta das pedras do Arpoador
Digo 'alô' ao inimigo
Encontro um abrigo no peito do meu traidor
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou
Vivo num 'clip' sem nexo
Um pierrot retrocesso
meio bossa nova e 'rock'n roll'
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor


Cazuza foi um artista que dançou, sapateou, sambou sobre a moralidade e os costumes brasileiros na década de 80. Apaixonadamente transgressor, fez de sua vida uma experimentação cujos resultados deram qualidade poética às suas canções. Sua vida e sua obra se misturam. Cantou e viveu com uma irreverência quase ingênua esse amor “ordinário”, provocante, que confunde coxas e testa o sexo com ar de professor.

Ê boi

ê boi ê boi ê boi
quem ficará quem foi
ê bumba iê iê
eu também já fui boi
A lua clareou no terreiro
berreiro eu parei pra escutar
e abri a janela do mundo
eu ria na noite vazia
eu via mas crer eu não cria
um saco de vento fechado
e o tempo parado no fundo
Zeca Baleiro
 morena vem cantar a toada
zoada eu cansei de escutar
cinema onde a luz não se esconde
quem sabe o olho acusa
e a blusa da musa me veste
amor palavra sem uso
vacina da peste



...Eu só faço música por causa da poesia”. Palavras de Zeca Baleiro que estão na apresentação de seu terceiro álbum, batizado de Líricas. E nem precisava dizer! Cada canção do cd demonstra a íntima ligação entre a arte do compositor maranhense e a poesia. Na versão de estúdio Zeca recita um trecho de Poema Sujo, obra de outro maranhense, o poeta Ferreira Gullar.

Ê boi é a sexta faixa do álbum. Com sonoridade e vocabulário regionais, é ao mesmo tempo moderna. Com uma narrativa sinuosa, visita imagens popularmente associadas ao sertão nordestino para falar de saudade e de outros sentimentos absolutamente universais, para os quais sequer temos nomes. Uma canção que talvez remeta a Guimarães Rosa: “O sertão é o mundo”.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A 1ª vez

Os poemas postados abaixo, bem como o texto "Quem tem medo de poesia?" foram levados impressos na primeira excursão que fizemos à Praça da Glória, em Contagem.


Se você quiser baixar os panfletos em pdf basta clicar aqui.

Quem tem medo de poesia?

Pare um momento! Leia com cuidado o poema que está em suas mãos e responda ao final: como você se sente? Percebeu?! É impossível permanecer indiferente à poesia. Por um motivo muito simples: ela faz parte de nós.

A vida é um enigma que tentamos desvendar através da razão e dos sentimentos. Se a ciência e a técnica, tão valorizadas nos tempos atuais, dão demonstrações do poder da razão, a poesia, como toda forma de arte, é expressão máxima da outra metade humana. A poesia é intuição! Ela completa a razão, pois alcança lugares onde a lógica não existe. É sempre uma obra inacabada, que só o leitor poderá terminar. Cada um dará a cada poema, a cada palavra um sentido único. Dessa forma a poesia não é para ser explicada, mas para ser “entendida” pela via das sensações e dos sentimentos. E estes, só não tem quem já morreu.