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Esse blog foi criado com a intenção de ampliar o diálogo entre o pessoal do Poesia na Praça e aqueles que gostaram da ideia.

Muitas vezes, nos rápidos encontros que temos com nossos interlocutores, ficamos com a sensação de que seria muito bom continuar a conversa. Então criamos esse espaço, na esperança de que essa também seja a sensação de quem ficou com o poema nas mãos e a lembrança desse encontro.

Sem contar que aqui poderemos apresentar um material mais rico e interessante. Se você chegou até aqui, esperamos que volte muitas outras vezes.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

As Sem-Razões do Amor


Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça

e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade
Drummond é considerado por muitos o maior poeta brasileiro contemporâneo. Estreou em 1930, com o livro Alguma Poesia . Livre de preconceitos literários anteriores, procura “trabalhar a realidade com as mãos puras”; fala-nos de cenas do cotidiano, de paisagens, de lembranças, fotografando a realidade, retratando a “vida besta”.  Além disso, acentua a temática amorosa, num lirismo contido e, por vezes, irônico.


Soneto de Fidelidade


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes
Um dos autores mais populares e festejados do século XX, Vinicius de Moraes é conhecido como o “poeta da paixão”. "...(Ele) é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural". "Eu queria ter sido Vinicius de Moraes", escreveu Carlos Drummond de Andrade, outro grande do século passado. Sua poesia é moderna, embora ele tenha se mostrado um mestre em formas tradicionais como o soneto. Nascido no Rio de Janeiro, em 1913, morreu em 1980 na mesma cidade.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Soneto


Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.


É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.


Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Luis Vaz de Camões

Camões, português que viveu entre 1524 e 1580, é um dos mais notáveis poetas da literatura universal. Afinal, quem conseguiria se manter tão vivo por praticamente 500 anos? O soneto aqui destacado é certamente um dos poemas mais conhecidos dentre os leitores de língua portuguesa.
Sua poesia é clássica, isto é, busca os ideais estéticos da tradição grega e romana. Para isso idealiza os homens, heróis desbravadores de mares como em  “Os Lusíadas”, sua principal obra. O amor é platônico, puro, sublime, elevado...

Via Láctea


Olavo Bilac
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".