![]() |
| Olavo Bilac |
E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto,
Fez, aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo;
E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;
E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano;
E o que inventou o canto; e o que criou a lira;
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...
Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!
Glossário:
Charrua: grade de ferro que, puxada por bois, serve para arar a terra do campo.
Abjeto: imundo, desprezível.Quilha: em sentido figurado, usado antigamente, é o mesmo que navio.
Urdir: tecer, entrelaçar.
Lira: antiquíssimo instrumento musical de cordas.
Benedicite (termo em latim cuja tradução é “abençoado”) é o nome de uma oração tradicional recomendada pela doutrina católica, retirada do livro de Daniel e dos Salmos. Aqui, em especial devido à última estrofe, ganhou outro contorno, muito mais ácido e menos ortodoxo.
Típico do parnasianismo, corrente da qual Bilac foi um grande representante, o último verso é o ponto alto do poema. Por isso ele é comumente conhecido como verso de ouro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário