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| Arthur Rimbaud |
Uma noite, fiz a Beleza sentar no meu colo. E achei amarga. Injuriei.
Me preveni contra a justiça.
Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, a vós meu tesouro foi entregue!
Consegui fazer desaparecer no meu espírito toda a esperança humana. Para extirpar qualquer alegria dava o salto mudo do animal feroz.
Chamei o pelotão para, morrendo, morder a coronha dos fuzis.
Chamei os torturadores para me afogarem com areia, sangue. A desgraça foi meu Deus. Me estendi na lama. Fui me secar no ar do crime. Preguei peças à loucura.
E a primavera me trouxe o riso horrível do idiota.
Ora, ultimamente, chegando ao ponto de soltar o último basta!, pensei em buscar a chave do antigo festim, que talvez me devolvesse o apetite dele.
A caridade é a chave. Inspiração que prova que eu estava sonhando!
“Continuarás hiena, etc...”, repete o demônio que me orna de amáveis flores de ópio. “A morte virá com todos os seus desejos, e o teu egoísmo e todos os pecados capitais.”
Ah! Pequei demais: - Mas, caro Satã, por favor, um cenho menos carregado! E esperando algumas pequenas covardias em atraso, como aprecia no escritor a falta de faculdades descritivas e instrutivas, lhe destaco estas assustadoras páginas do meu bloco de condenado eterno.
Rimbaud (pronucia-se “Ramboud”) teve uma vida tão pouco convencional que, para melhor apreciar o que escreveu, é bom saber alguns detalhes de como viveu. Aos 13 anos já tinha recebido prêmios por seus escritos em latim. Aos 17 acaba com o casamento de um dos maiores poetas franceses de seu tempo, Paul Verlaine, que abandona a família para viver um romance com Rimbaud pela Europa afora, tomando absinto e fumando haxixe. Separam-se. Verlaine atira em Rimbaud e vai preso. Rimbaud escreve suas maiores obras: “Uma Temporada no Inferno” e “Iluminações”. Após isso, aos 20 anos, abandona deliberadamente a poesia para se tornar traficante de armas e mercenário. Morreu aos 37 anos, vítima de um câncer no joelho.
Rimbaud continua a ser influência marcante na literatura universal. Não à toa mereceu de Vinicius de Moraes a lacônica observação: “[Ele] foi o maior de todos”.

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